Os acontecimentos de 2020 não serão esquecidos. A pandemia que se alastrou pelo mundo vem deixando marcas nos mais diversos setores da sociedade e causando uma mudança completa no cotidiano das pessoas ao redor do mundo. Entre os muitos segmentos afetados pela Covid-19, a cultura está entre os principais, com o fechamento de teatros, cinemas, museus e livrarias. Contudo, mesmo com tantas adversidades, a literatura ainda permanece inabalada no que diz respeito a sua importância.

A escritora Bia Onofre, autora de “Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou o banquete das hienas”, foi uma das primeiras brasileiras diagnosticadas com coronavírus, após retornar de uma viagem ao Irã, e transformou a experiência em um livro chamado “O amor nos tempos da corona”.

 

Como fui uma das primeiras pacientes testadas positivo para a COVID-19 no Brasil, comecei a quarentena antes de quase todo mundo e a solidão bateu forte. Além da doença, eu enfrentava um divórcio doloroso e tentava me reerguer. A escrita me ajudou a colocar, literalmente, os pingos nos "is" em relação ao que eu estava vivendo naquele momento. Foi um diálogo intenso comigo mesma e com meus personagens e possíveis leitores”, revelou Bia em entrevista.

 

Narrando em seu livro, desde os sintomas da doença até a maneira de se relacionar com os novos protocolos de saúde, Bia usou o período de isolamento para escrever a obra e garante que a pandemia influenciou tanto a maneira que os leitores consomem literatura quanto a produção literária dos autores.

 

Alguns escritores acabaram tendo mais tempo para se dedicar aos escritos - o que certamente foi meu caso - e os leitores também. Entretanto, várias pessoas lidaram muito mal com o isolamento e não conseguiram se concentrar no que faziam como antes. Talvez uma "ferramenta psíquica" para fugir do aqui e agora e de todo o stress causado pela pandemia. Diversos conhecidos meus, leitores compulsivos, me contaram que não conseguiram ler nem um livro sequer, durante todo o tempo em que ficaram isolados. Pode ser que alguns escritores tenham passado por algo parecido”, pondera a autora sobre como a pandemia afetou o comportamento de leitores e escritores.

 

Impondo uma nova rotina, a pandemia se tornou o assunto principal do cotidiano e o ofício de muitos artistas passou a ser analisar os efeitos e sentimentos que entraram em ebulição com a quarentena e demais decorrências do vírus. Nesse sentido, a literatura funciona também como um relato, tanto histórico, como sentimental, desse período de incerteza e escrever é uma forma de imortalizá-lo para futuras gerações. Quando questionada sobre o assunto, Bia garante:


Sim, de alguma maneira acredito que a obra imortaliza esse período histórico. Meu relato é bastante fiel ao que vi, ouvi e vivi como paciente da COVID-19 e como moradora de São Paulo nos primeiros meses da pandemia. Apesar de alguns fatos terem sido narrados com pitadas de humor, o que diz respeito a quarentena foi descrito muito próximo da realidade. Temos que levar em conta que falo somente sobre a minha experiência e minha visão dos acontecimentos. Do que, efetivamente, aconteceu comigo e ao meu redor.

 

Além do papel documental, a literatura também representa uma vertente mais subjetiva e quase terapêutica, para muitos escritores e leitores.

 

A literatura tem me ajudado muito no decorrer da minha vida.  Através dela, diversas vezes, consegui exorcizar a doença, o luto e a solidão, assim como ela também me ajuda a exorcizar o que me causa inconformidade no mundo em que vivemos. Não tenho dúvidas disso. Mas, infelizmente, não creio que esse "remédio" tenha o mesmo efeito em todos os pacientes. Como diria Caetano: Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. E cada um deve procurar descobrir o que lhe ajuda a vencer momentos de crises. Eu conto sempre com um bom livro. Pode não ser o suficiente, mas ajuda. E muito! ”, conclui Bia.

 

Afora “O amor nos tempos da corona”, a Giostri Editora lançou outros livros que retratam o período que estamos vivendo. Em “A solitude das cidades: um juiz em estado de cárcere - Crônicas em tempos de pandemia”, o juiz João Marcos Buch reflete sobre esse momento histórico, trazendo sua visão potente sobre acontecimentos políticos, cotidianos, pessoais e o impacto da pandemia no sistema prisional, no qual atua como Juiz Corregedor de Vara de Execução Penal. Já “Pandemia – Prisão – a história contada de dentro”, organizado por Alex Giostri, compila os relatos de onze apenados que estão encarcerados nesse período pandêmico, descrevendo seus sentimentos, ideias, sonhos e cotidiano. O recém-lançado “Novelinha do isolamento” de Álex Herold também propõe um mergulho na mente humana durante a quarentena ao retratar a vida de Rudinei e Aurora, um casal que se isola e precisa lidar com questões internas e de convivência.

Por isso, as obras que retratam esse momento possuem um papel fundamental, tanto do ponto de vista político-histórico, no qual descrevem e analisam a situação por diversos pontos de vista, como do pessoal, transmitindo os sentimentos e as tormentas desse período que vem causando dores e perdas. Dessa maneira, a literatura e os escritores se reafirmam como pilares fundamentais em épocas de incertezas, seja ao descrever a realidade que estamos inseridos, seja para mostrar que não estamos sozinhos.

 

 

A seguir, saiba mais sobre os livros citados na matéria:

O amor nos tempos da corona, de Bia Onofre

Arroz, feijão, crimes e farofa e/ou o banquete das hienas, de Bia Onofre

A solitude das cidades: um juiz em estado de cárcere - Crônicas em tempos de pandemia, de João Marcos Buch

Pandemia – Prisão – a história contada de dentro, organização de Alex Giostri

Novelinha do isolamento, de Álex Herold

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