Em uma realidade digitalizada, com milhares de informações em rede, fica difícil lembrar como era o mundo antes de toda essa revolução tecnológica, sem celulares e computadores. E mais difícil ainda é entender como crescer nesse mundo onde os nossos perfis em redes sociais parecem se tornar verdadeiros documentos de identidade.

Entre as muitas discussões, o conflito de gerações encontra um debate acirrado também na maneira de consumir literatura e tenta encontrar caminhos para transmitir o amor pelas letras para novos e pequenos leitores.

A escritora Verônica Vincenza, autora de diversos livros infantis, tais como O Circo Dos Amigos - Uma História Em Movimento, relatou em entrevista, como surgiu seu interesse pela leitura em um período bem diferente do atual, com a popularização de livros digitais e podcasts:

Na casa da minha avó e na da minha mãe sempre tivemos bibliotecas, para mim era um lugar mágico, onde morava todo o conhecimento do mundo. Meu avô gostava de inventar histórias para mim e para o meu irmão e eu, aos 3 anos de idade, gravei minha primeira história, na época em fita cassete, de minha autoria”.


Com o passar dos anos, Verônica começou a escrever poesia e participou de dezenas de antologias, se especializando em literatura infantil, com títulos como O chocalho de Carlinhos, Arthur quer tocar berimbau, A Bateria de Maria, O Tamborim de Joaquim, entre outros.

Para criar o interesse pela leitura nas crianças, a autora ressalta a importância da participação dos pais nesse processo, incluindo a literatura no cotidiano da família, e, assim, estreitando os laços entre os pequenos e os livros. 

Sou mãe de gêmeos: O Carlos Henrique e o Arthur Lorenzo de 8 anos. Como mãe eu faço de tudo: levo meus filhos a livrarias, bibliotecas, feira de livros, deixo eles escolherem seus próprios livros nestes lugares, deixo os livros de casa à mão para que eles possam estar em contato. A minha vida de leitora começou cedo e naturalmente, pois eu tive o privilégio de ter bons exemplos em casa”.

 

O mundo virtual e a literatura

Vincenza também é otimista e não enxerga as redes sociais, que fazem parte do nosso cotidiano, como empecilho para afastar as crianças dos livros:

as redes sociais são aliadas para se difundir este hábito de leitura, para incentivar o leitor a descoberta de suas próprias interpretações tendo o livro em suas mãos. Por meio das redes sociais descobrimos novos títulos, novos autores, e porque não dizer novas aventuras para as crianças, e também novos instrumentos para reforçar os conteúdos didáticos abordados nas aulas pelos professores e lidos e debatidos em casa”. 

E a própria autora encontrou uma saída interessante para unir as redes sociais, os filhos e os livros:

aqui em casa eu usei uma técnica um pouquinho diferente. Quando os meus filhos tinham 7 anos a professora me chamou e pediu para que eu incentivasse mais os meninos a lerem em casa. Eu me questionei o que estaria faltando fazer... Depois de observar o que os meus filhos faziam em seus tempos livres, percebi que eles tinham o hábito de ver vídeos de Youtubers e tinham muita vontade de imitar. Lancei um desafio a eles: Que lessem, sozinhos, um livro inteiro e eu faria um vídeo deles contando o resumo nas minhas redes sociais”, narra Vincenza, que garantiu o sucesso da empreitada! “Gravamos os vídeos e foi um sucesso: os meninos não pararam de ler desde então”, finaliza.

Para outros pais que estão diariamente nessa missão literária, Verônica também destacou outras dicas e ações que podem trazer um resultado positivo ao fomentar esse interesse nos mais jovens:

Acredito que podemos aliar o ambiente digital, onde são contadas histórias, apresentar lugares novos em que as crianças tenham contato com os livros, como livrarias, bibliotecas, feiras de livros, contações de histórias e ter livros em casa e à mão da criança também ajuda muito, pois assim, apresentamos outras alternativas para o tempo livre dos pequenos. Por último, e não menos importante, ter o hábito de ler e debater os livros em casa com as crianças: esta ação irá desenvolver na criança a associação de que a leitura é um momento especial, de carinho e reflexão”.

 

O Dono da gravata

E se engana quem pensa que a literatura infantil só traz benefícios para os pequenos. Cheios de histórias fantásticas, os enredos aparentemente infantis podem proporcionar uma leitura diferente para os pais, que acompanham a história com um ponto de vista mais maduro e observador.

Acredito que um personagem consistente deve apresentar o seu mundo de maneira ímpar e profunda, para poder ampliar o significado da história e a interpretação de cada leitor. Quando diversificamos a possibilidade de interpretação de uma obra por meio de alegorias, ampliamos também o público leitor, pois possibilitamos a obra mais interpretações, conforme a maturidade e letramento literário de cada faixa etária”, explica Verônica.

Em seu livro mais recente, O dono da gravata, com ilustrações de André Ximene, a escritora conta a história sob o ponto de vista de Kika, uma gravata que procura seu dono.

No caso específico do livro O dono da gravata, Kika pode representar a nossa vontade de alcançar um objetivo, um sonho, seja ele qual for: uma companhia, um propósito, uma razão de se fazer útil”.

A ideia de contar uma história sob o ponto de vista de uma gravata faz referências a esse mundo lúdico e fantasioso da literatura infantil, que brinca e diverte ao dar vida a seres inanimados e encantados.

Alguns anos atrás eu era Coordenadora de projetos interdisciplinares em uma escola, os alunos estavam estudando pop art; obras como O gato, de Romero Britto. Pediram-me que contasse uma história em que fosse utilizada essa obra como referência. Para fugir do óbvio de contar a história pelo ponto de vista do gato engravatado, decidi contar a história pelo ponto de vista da gravata”, relata Vincenza sobre o surgimento da ideia central do livro.

Por isso, a literatura infantil se reafirma como uma ferramenta poderosa e criativa para sair da obviedade e deixar os livros ao alcance das crianças, mesmo com o mundo em sua constante robotização.

 

Confira, a seguir, uma lista com os livros de Verônica Vincenza e o link para adquiri-los:

O chocalho de Carlinhos

Arthur quer tocar berimbau

A Bateria de Maria

O Tamborim de Joaquim

O dono da gravata

Beatriz e festa da chuva

Lagarta-borboleta: a vida em versos contada

O Circo Dos Amigos - Uma História Em Movimento

Meus Irmãos Chegaram em parceria com Valentina Gadelha

A importância da leitura compartilhada para as crianças - por Maria Amália Forte Banzato
Você sabe o que é a leitura compartilhada? ...
Livros ilustrados: o poder da arte na formação de novos leitores
Cada vez mais as ilustrações ganham força no mercado editorial, principalmente na literatura infantil, onde a linguagem visual traz uma conexão i...
Deixe seu comentário