por Alex Giostri

Já venho neste desenvolvimento textual com apenados há alguns livros. Comecei as oficinas na mesma Penitenciária Industrial de Joinville-SC, com contos desenvolvidos individualmente, isto é, um autor por conto contado, e que se somaram dezessete autores para o primeiro livro. Esclareço que conto é um gênero literário curto, é aquele texto que tem começo, meio e fim e é ficcional; sendo ficção aquilo que não é "verdade".

Em seguida, fui para o livro 2, também composto por contos e por apenados. Este, no entanto, em seu processo criativo, desenvolvido através de uma criação individual e em dupla: individual no que diz respeito às ideias e personagens e desfecho, e em dupla no que diz respeito ao desenvolvimento do todo. Enfim, com muito mais obstáculos aos participantes (detalhes da oficina são encontrados no livro Contos Tirados de Mim – A Literatura no Cárcere – Volume 2).

Aqui mergulhei, junto aos apenados, na escrita dramática, sendo escrita dramática um gênero literário, a dita literatura dramática, que é também nomeada como dramaturgia, que, por fim, popularmente apresentando, é o texto que dá origem ao fazer teatral, ao teatro.

Mas como não autores escrevem ficção? Como não dramaturgos pensam a escrita dramática? E como escrever ficção em situação de privação de liberdade?

É isso que quero mencionar, é isso que precisamos saber. Rompem-se as estruturas formais e dá-se espaço às iniciativas espontâneas e ativadas através das atividades lúdico-pedagógicas aplicadas nas oficinas literárias desenvolvidas no cárcere. Narrarei, portanto, a questão da não pedagogia. Do não método. Ou, se assim soar melhor, apontarei o que penso ser a melhor maneira de aplicar atividades como essas em unidades prisionais, com indivíduos em situação de privação de suas liberdades. E isso deve ficar muito transparente e documentado em todas as publicações, pois, mais importante do que o método, do que a pedagogia, do que as estruturas formais, mais importante do que todas juntas, deve ser o indivíduo, o participante, a demanda de cada um, a necessidade pontual e a possibilidade de aproximação consigo e conosco. Não poderia eu pensar em ações didáticas em prol da estrutura formal e/ou da pedagogia uma vez que o foco em qualquer ação educativa e/ou lúdica em unidades prisionais, a meu ver, deve ser o sujeito e a eficácia daquilo que faço; estou lidando com vidas que tropeçaram e que não queriam estar onde estão, o buraco é muito mais embaixo, portanto, não se trata de boa ação, não se trata de pesquisa acadêmica, não se trata de publicar o livro do apenado. O foco é o humanizar através da reflexão, do silenciamento interno, o foco é dar o poder de escuta e o remapeamento interno em cada um. E as ações estabelecidas por mim e acreditadas por todos os apenados, autoridades, psicanalistas, pedagogos, querem fazer isso, e, creio eu, alcançam seus resultados. E trabalhar sentimentalidades, emoções, relacionamentos, humanizar indivíduos presos, não se faz com métodos enrijecidos e/ou com a pedagogia aplicada na rua, mas sim a partir e através de todas as ferramentas disponíveis a cada um de nós aplicadores. A sensibilidade de cada aplicador é que dará as coordenadas. E a eficácia, se alcançada, será naturalmente revelada à mesa. Lidamos com porões secretos, abrimos, através das ações oferecidas, as portas. E o começo de tudo se dá a partir da leitura, depois da interpretação daquilo que se leu, com a reflexão. E com a reflexão ofertada ao indivíduo, dá-se o poder da escolha e, juntado a isso, o poder da escuta. Daí, dá-se a ele o poder da fala através da escrita. E através da escrita eu estabeleço a voz interior em cada um, estabeleço a cumplicidade daquilo que se pensa e daquilo que se escreve. Aí cada participante põe de si no papel e, estando no papel, se reconhece, e, se reconhecendo, passa a ser o que lê, ou passa a não querer mais o que lê, ou seja, estabelecem-se o peso e a balança. E é através de tais mecanismos que venho conduzindo as ações e os envolvidos. Eu, assim como a oficina e a literatura, sou também ferramenta condutora. Os responsáveis finais são e devem ser apenas os que desenvolvem os textos; os méritos, portanto, são dos participantes.

Por fim, os participantes escrevem ficção e dramaturgia e biografia, porque são agora indivíduos que pensam e externam seus pensamentos. Fazem isso porque passaram a ter expectativas em seus corações e também dois olhares. O do passado, de onde vieram. E o do futuro, para onde querem ir ou não querem voltar, pois, até então, o que lhes cabia era apenas o presente, o cumprimento de suas penas, o amargor do dia a dia na prisão. A contagem minuciosa dos minutos, dias, meses e anos para sair do sistema prisional. Com as ações, o amargor continua, a contagem prevalece, mas agora vão junto a lembrança e a esperança, ambas poderosas ferramentas contra a autodestruição.

Abro um parêntese aqui para falar da educação de base na rua. Apenas uma rápida reflexão: como eu posso querer que uma criança estude e vá bem na escola se não há comida em casa e ela só vai para a escola para comer o lanche oferecido? Enquanto não se compreender que o que as move para a escola é a falta do alimento, os educadores acreditarão que a criança é inapta, atrasada, desinteressada, preguiçosa, pois se esqueceu de olhar a demanda desse pequeno indivíduo. E na prisão é igual. Enquanto não se compreender que a eficácia no ensino e nas ações deve passar por um aprimoramento pedagógico e por métodos mais abrangentes – isso nas poucas unidades que possuem essa possibilidade da escola, das atividades lúdicas –, o tempo pode ser jogado todo fora e efetivamente não se formarão novas maneiras de ver a vida, a tão falada reintegração estará sempre fadada à ilusão. A educação que deve vir junto à educação de base é a educação da vida, dos valores, da ética, do peso e da medida, e, neste sentido, o educador deve estar preparado (e se preparar) para esse fim. A matemática não pode interessar mais do que a construção do caráter do sujeito. Mas pode ser utilizada a matemática para se chegar à formação do caráter. E de maneira simples: o que forma um caráter? O que forma um sujeito? Somam-se os itens e se alcançará um resultado.

Não posso finalizar sem apresentar o meu olhar sobre todos os textos aqui escritos. Li e reli, e encontrei em cada fala de personagens, e em todos os autores, um pouco de sonhos, lembranças, expectativas, desilusões; é fantástica a autonomia e a liberdade que a escrita nos dá, que deu a eles, pois visivelmente desamarraram-se os nós. E, neste sentido, percebo que os nós desatados nesta escrita dramática se deram de maneira mais pontual, mais direta. Os desejos e demandas foram postos nas falas, sendo como autorreferências e/ou metamorfoseados nas falas das outras personagens. E é evidente em todos os textos a coerência no discurso, a relação crua com a situação do encarceramento, sendo crua aqui no sentido de tratar da situação sem florear ou criar uma autopiedade e/ou criar um senso de injustiçamento. Das críticas, todas as feitas, são pela falta de integridade no aprisionar e não no aprisionamento em si, sendo assim, temos nos apenados uma consciência crítica, sobretudo em relação à educação no cárcere e à reintegração. No fim das contas eles querem ser ajudados e não são, ficam esquecidos vendo o tempo passar. As suas representações em todos os textos são claras e devem ser lidas com a cautela que se deve ter numa leitura filosófica, pois há muito mais nas entrelinhas destes textos do que nas entrelinhas tradicionais de quaisquer dos livros de filosofia que nós, leitores, educadores, dramaturgos e autoridades, já lemos. Isso mostra a eficácia da literatura, da palavra, do pensamento, do texto que se torna teatro. E mostra que oferecer a voz e a escuta e a fala a qualquer pessoa é dar a ela a receita da fundação de sua identidade, seja de maneira continuada, reconstruída e/ou resgatada.


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